Não é nem deixa de ser..
Tu não sabes se o mundo é uma ilusão, apenas tens uma percepção do real que te é idiossincrática. A realidade (ou verdade) é algo que está para além do alcance de qualquer um e no entanto rodeia-nos e está até dentro de nós. A realidade é só uma, não é ilusória: “eu penso logo existo” e se existo, logo tenho de ter um espaço e também um tempo. A visão da realidade difere para cada pessoa. Nunca poderemos ter a certeza que a cor que designamos vermelha é vista por todos na mesma tonalidade. Mesmo que se apliquem todos os instrumentos tecnológicos possíveis e imaginários, o veículo dessa informação até ao nosso órgão processador central é sempre personalizado e intransmissível, logo, diferente. Neste ponto concordo contigo, de facto, por mais que alguém se esforce por mostrar a sua visão do mundo a outrem nunca ninguém terá a certeza de a conseguir ver como o próprio porque, para o provar, teria de ver através dele, teria de sair de si mesmo para Ser o outro.
Mas esta é uma visão já muito discutida por vários filósofos e pensadores, este extremismo que em vez de nos aproximar de um caminho, de uma saída, cada vez nos afasta mais dessa porta. Não é novo e não é também o caminho final. Creio que seja importante vaguear por estes terrenos obscuros com afinco, mergulhar na floresta até não poder mais para se saber escolher o caminho com conhecimento de causa. É como que se tivesses de sair do teu corpo para olhar de fora o como e quem és, para te veres .. É fundamental, de facto, mas não significa que seja A verdade.
Já pensaste que é uma ideia um pouco narcisista “sou um ser diferente de todos os outros, não há ninguém igual a mim” Somos diferentes até que ponto? Não seremos todos formados pelos mesmos átomos de carbono entre outras coisas? Na verdade o que difere não será tanto a percepção da realidade em si, mas sim a conceptualização dessa realidade, a significação que lhe atribuímos.
Penso que é dada demasiada importância ao Ser a priori quando o que realmente difere entre os seres humanos é a construção desse Ser pela interacção de factores intrínsecos e extrínsecos. Tal como numa receita, os ingredientes estão ao dispor de todos em diferentes locais, mas as doses, a ordem, as misturas, as oportunidades e as escolhas de cada um, fazem toda a diferença. Portanto, se alguém usa 100g da farinha X do local Y à hora Z é-me impossível usar essas mesmas 100g para o meu bolo, poderei apenas usar outras 100g da mesma farinha X e terei de optar previamente ou pela hora Z ou pelo local Y (mutuamente excluíveis), mas mesmo assim, essas 110g nunca serão as mesmas – é uma questão de matéria, tempo e espaço que não é sobreponível no mesmo universo.
Tudo isto para dizer o seguinte: não será a nossa realidade a mesma em diferentes doses e misturas? Tal como nos é fisicamente impossível alguma vez saber se o vermelho que vemos é o mesmo vermelho para todos, também nunca poderemos afirmar o contrário porque isso implicaria a mesma capacidade de transcendência da própria matéria.
No fundo, defendo apenas uma questão de justiça para com o desconhecido.
3 comentários:
Eu não posso dizer que aquilo que reflecti é a verdade das coisas, quando eu próprio assumo que o acto mais verídico que podemos ter é assumir que mentimos. Mentir não implica um completo desacordo com a verdade. Basta apenas uma palavra deslocada da verdade para que uma frase inteira se torne contaminada por algum grau de falsidade. No entanto, a ilusão a que me refiro tem um carácter de positividade. Na medida em que podemos viver dela, podemos manipulá-la em nosso favor de forma a pintar a realidade da forma como cremos que seja o mais próximo da verdade. O significado de ilusão diz-nos que a ilusão é uma crença falsa. E se eu afirmo que tudo aquilo que posso construir a partir da realidade é uma crença e bastando a esta um pequeno desvio da verdade para que esta não seja inteiramente verdadeira, então posso afirmar que a crença é falsa. E nós que falamos da realidade temos que ter a noção do que é isto da realidade. Realidade é tudo o que existe de facto. E por isso podemos distinguir 3 realidades. A realidade inacessível, a realidade acessível e a realidade subjectiva. A realidade inacessível é aquela que me está fora do alcance conhecer dadas as minhas limitações no tempo e no espaço mas que existe e, portanto, não deixa de ser real só por eu não a conhecer. A realidade acessível é aquela que está ao meu alcance e é possível de ser conhecida por mim. A realidade subjectiva é por seu turno a reconstrução dessa realidade acessível e projectada pelo meu Eu no interior de mim mesmo. Ora, essa projecção existe, daí que não sou um ser despegado do que me rodeia, logo a projecção que eu reconstruo é uma realidade. No entanto, como vemos, esta projecção sendo real não implica que seja verdadeira. E nesse sentido, podemos dizer que a projecção da realidade em nós é uma crença porque tenta colocar um significado ao que está à vista. No entanto, não podemos dizer que essa crença é verdadeira só por sermos nós que a construímos e que acreditamos nela. Podemos dizer que temos a nossa crença e que, tal como todas as crenças, tem o seu grau de falsidade. Assim sendo, podemos dizer que a nossa projecção do mundo em nós próprios mais se aproxima de uma ilusão do que aquilo que seja propriamente a verdade. A reflexão ainda se continuaria, vezes sem conta, ao nos darmos de contas que a própria verdade sobre nós próprios nos é inacessível, na medida em que sabemos que qualquer projecção que nos chega à consciência é resultado de uma ampla gama de processos neuronais articulados de forma inconsciente. Ora, se nós sabemos que a informação inconsciente influencia a projecção que nos chega à consciência e se a primeira nos é inacessível, mais perto ficamos de verificar que até dentro de nós existe uma máquina inconsciente que nos ilude a ser o que somos. De facto, isto é um caminho assombroso de se percorrer, na medida em que descobrimos que a crença que temos de nós próprios, é apenas o que nos é permitido conhecer dentro de nós próprios. E assim, podemos dizer que vivemos em consonância com o nosso mundo interior (realidade subjectiva) e que este, por seu turno, é uma ilusão de outro mundo: da realidade acessível. A verdade está algures fora do nosso alcance interior e exterior.
Ola, Raquel! Tarde, mas veio!
Gostei muito do teu texto e, como prometido, aqui ficam as reflexoes referentes a minha conceptualizacao da mensagem que transmitiste :)
Fascina-me sempre a necessidade que o ser humano tem de criar um distanciamento entre ele proprio e aquilo que o rodeia, sendo que seria possivel uma tangilbilidade muito maior, olhando para as coisas de um ponto de vista mais pratico. Nao viso criticar o proposito da Filosofia, pois humildemente reconheco que se trata de um desdobramento mais complexo que recai sobre si mesmo -como um paradigma que e ciclico, mas cada vez mais consciente aquando de cada volta. No entanto, acho que poderei criticar, como tu o fizeste, esse conceito de uma realidade absoluta.
Corroborando a tua tese, ser-nos-ia impossivel a privacao da nossa estrutura pessoal (crencas, caracter, habitos, condicoes), tornando possivel uma percepcao puramente imparcial e objectiva daquilo que nos rodeia. Estamos "condenados" a filtrar a informacao - a detorpa-la, se quiseres.
Como me conheces muito bem, sabes que sou uma pessoa pratica no que concerne a estas questoes - gosto de dismistificar valores e de destronar tabus. Penso, portanto, que a unica realidade que e artificial e aquela da qual, muito frustradamente, muitos se queixam de nao conseguir aceder - o mundo envolvente nao digerido pela mente. Entenda-se que nao pretendo criar uma contradicao entre os conceitos real vs artificial; neste contexto, a acepcao de artificial deve ser "aquilo que so o e, devido a sua previa conceptualizacao mental". Olhemos para esta questao de outra forma - se nos e impossivel o acesso a essa esfera, porque valoriza-la mais do que aquilo que nos e comum? Porque e que esse dominio ha-de ser mais real do que o produto da filtragem das nossas percepcoes? Afinal de contas, e este segundo que nos e util. Na minha opiniao, e infrutifero considerar a existencia de um mundo factual, seco, cru, despido (sei que e um ponto de vista bastante radical), pois acredito que a ideia de tal esfera apenas se originou devido a uma relacao de antonimia com aquilo que conhecemos, ou seja, por oposicao a realidade que nos temos (filtrada), criou-se um "mito" de uma realidade pura, que, apenas por o ser humano nao a conseguir atingir, e mais apelativa do que a que acedemos diariamente (normalmente, aplica-se este principio: o ser humano deseja sempre aquilo que nao tem e prefere sempre esse desejo ao usufruto do que detem). Jamais a alcancaremos e deve ser, por isso, descartada - por essa impossibilidade de contacto e que digo que o que apenas sobrevive dessa esfera e a sua conceptualizacao mental, a sua ideia; por isso me atrevi a classifica-la como artificial.
Espero sinceramente que me incineres com comentarios e refutacoes, pois tenho nocao da dimensao da proposta que acabo de realizar; porem, penso que os nossos pensamentos sao parcialmente concordantes na medida em que, de facto, devemos generalizaor um pouco mais o conceito de realidade.
Como tambem pudeste testemunhar, nao escrevia um texto destes ha imenso tempo, por isso a articulacao de ideias esta um pouco ferrugenta, mas perderei isso assim que adquirirmos um ritmo de discussao mais regular.
Beijinhos,
Pedro
O meu teclado continua a nao ter acentos :P
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